12.09.2009

Além do Ponto


Caio Fernando Abreu
Para Livio Amaral

"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.

Um carro passou mais perto e me molhou inteiro, sairia um rio das minhas roupas se conseguisse torcê-las, então decidi na minha cabeça que depois de abrir a porta ele diria qualquer coisa tipo mas como você está molhado, sem nenhum espanto, porque ele me esperava, ele me chamava, eu só ia indo porque ele me chamava, eu me atrevia, eu ia além daquele ponto de estar parado, agora pelo caminho de árvores sem folhas e a rua interrompida que eu revia daquele jeito estranho de já ter estado lá sem nunca ter, hesitava mas ia indo, no meio da cidade como um invisível fio saindo da cabeça dele até a minha, quem me via assim molhado não via nosso segredo, via apenas um sujeito molhado sem capa nem guarda-chuva, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito. Era a mim que ele chamava, pelo meio da cidade, puxando o fio desde a minha cabeça até a dele, por dentro da chuva, era para mim que ele abriria sua porta, chegando muito perto agora, tão perto que uma quentura me subia para o rosto, como se tivesse bebido o conhaque todo, trocaria minha roupa molhada por outra mais seca e tomaria lentamente minhas mãos entre as suas, acariciando-as devagar para aquecê-las, espantando o roxo da pele fria, começava a escurecer, era cedo ainda, mas ia escurecendo cedo, mais cedo que de costume, e nem era inverno, ele arrumaria uma cama larga com muitos cobertores, e foi então que escorreguei e caí e tudo tão de repente, para proteger a garrafa apertei-a mais contra o peito e ela bateu numa pedra, e além da água da chuva e da lama dos carros a minha roupa agora também estava encharcada de conhaque, como um bêbado, fedendo, não beberíamos então, tentei sorrir, com cuidado, o lábio inferior quase imóvel, escondendo o caco do dente, e pensei na lama que ele limparia terno, porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta.

Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu mantido apenas por aquele fio invisível ligado à minha cabeça, agora tão próximo que se quisesse eu poderia imaginar alguma coisa como um zumbido eletrônico saindo da cabeça dele até chegar na minha, mas como se faz? eu reaprendia e inventava sempre, sempre em direção a ele, para chegar inteiro, os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora. E bati, e bati outra vez, e tornei a bater, e continuei batendo sem me importar que as pessoas na rua parassem para olhar, eu quis chamá-lo, mas tinha esquecido seu nome, se é que alguma vez o soube, se é que ele o teve um dia, talvez eu tivesse febre, tudo ficara muito confuso, idéias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, batendo, na mesma porta que não abre nunca."

Foto de Jordyn R.

Namorados

Carlos Drummond de Andrade

"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro.(...) até paixão é fácil.
Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.(...) basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. (...)
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. (...)Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas: de carinho escondido na hora em que passa o filme(...)
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a c
riança própria e a do amado (...)
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
(...) Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo(...)
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça!"

Fiz as pazes com a chuva.

Blasfemei os céus e infernos, deuses e demônios pela chuva que caía sem cessar. Reclamei do mofo, do cheiro das casas antigas de minhas tias-avós que voltei a sentir, da roupa que queria usar e não secava.

E a chuva não cessava.

Incomodou-me as barras de calças molhadas, as pessoas descuidadas e seus guarda-chuvas assassinos, o trânsito ainda mais caótico dessa cidade insana. Em dias de chuva, a cidade ensandece ainda mais. Como se estivesse em surto.

E a chuva? Não parava.

Esqueci-me das pessoas que perdiam seus tudos, dos mendigos e sem-tetos, dos feirantes e ambulantes, dos motoboys e dos pedestres. A chuva, parecia, que só a mim incomodava. E que era para mim um castigo do destino. A ela culpava todas as minhas aflições, por causa dela vivia a penúria de estar apressado, sem carro e todo molhado.

Mas a chuva, de mim, caçoava. E mesmo assim, não estancava.

Percebi que dela somente as poças eu guardava, água estagnada, sem grande utilidade.

Resolvi então unir-me ao fatídico.

Um dia, passos antes de chegar em casa, a chuva se apressou, para lembrar-me de sua permanência. Eu dei de desentendido, mais lento caminhava.

As gotas desciam grossas e premeditaram a intenção do que viria. Uma densa, longa e molhada situação. Em retorno, eu ria e passeava pelo velho caminho da calçada.

E ela, a chuva, não se apiedou e rompeu, em pesados e mornos pingos d’água.

Minha calmaria e, descabida tranquilidade, vinha de tempos de boa leitura.

Lembrei-me de um trecho de um poema de Drummond.

Entrei em casa, com a camisa branca grudada. Deixei minha mala na poltrona da sala. Tirei o tênis, a meia e a calça. Subi para o banheiro e peguei a branca toalha. Olhei no espelho e ri da face molhada. Caminhei para a varanda do meu quarto, na parte detrás da casa. Antes fiz uma parada e coloquei para tocar a música do CD que no aparelho já estava. Como a camisa era minha testemunha da água que caía, com ela permaneci e em sua companhia, como fiel aliada, a branca cueca.

E para chuva fui. De braços abertos, com vontade escancarada.

Ela tomou conta de mim todo, do corpo à alma, completamente lavados.

Lembrei-me do cheiro de terra molhada, dos conselhos cautelosos dos mais velhos e das brincadeiras guardadas da infância.

Recordei-me dos banhos de mar, piscina e açude por ela testemunhada, das corridas fugidias e das situações improvisadas.

Senti saudades da fantasia realizada do beijo cinematográfico e das intimidades de uma paixão que ela ajudara a se tornar realidade. Do sexo por ela batizado.

Nesse instante, fiz as pazes com a chuva.

E hoje, eu digo, que venha chuva cúmplice. Doce amiga e eterna aliada.

PS. O poema de Carlos Drummond de Andrade virá no próximo “post”.

12.07.2009

Vou por onde desejo!!!

"Cântico Negro"

José Régio










"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

Quis partilhar esse texto, que durante boa parte da minha adolescência e juventude me guiou para poder chegar em algum lugar que não sabia e para não ir onde não queria.
Pior que não saber onde vai parar, é não querer estar lá.

11.26.2009

Tudo tem um fim!


...

Repito a frase de cima.

Tudo tem um fim!
Mas apesar de emocionado, me alegro com o fim.
Explico.

Os que me conhecem, sabem,
o quanto propago o meu ceticismo em relação aos mistérios da vida. Praguejo as religiões, seus líderes e seguidores. Duvido dos mandamentos, dogmas e ensinamentos.

Contudo poucas "verdades" são "verdadeiras" para mim.
Uma, o que chamo de aproximação das antíteses.
Que os conceitos opostos, apesar de se confrontarem, coexistem bem próximos um do outro.

Verdade e mentira, amor e ódio, desejo e repulsa e tantos outros que podemos enumerar. Entre eles está o fim e o começo.

Ao depararmo-nos com um instante de nossas vidas que a mudança se torna inevitável, escolhas têm que serem feitas.
Umas mais suaves, outras abruptas.As primeiras nos possibilitam a continuidade de velhos hábitos, sejam eles bons ou não. Já as abruptas, nos determinam o corte de relações estabelecidas do nosso viver que muitas vezes nos são queridos.
Mudamos de ambiente, de horários, de convívio, inclusive, mudamos de amores. E a dor desse abandono, parece-nos incomensurável.

O que esquecem de nos ensinar, é que boa parte das vezes que "partimos" do cais seguro, podemos encontrar "terras" tão surpreendentes quanto as que estamos acostumados. E ainda melhor, aquele espaço que nos sentimos à vontade, 
não acabou, nem desapareceu. Cada um de nós, carrega em si os opostos próximos.

Por mais que não haja regresso, ele está interno a nós, pois somos aquilo que vivemos e o que desejamos. Somos o passado e o futuro. Executamos a cada dia o nosso aprendizado, aquele que nos formou e o que moldará o que está por vir. Para nós e para os que estarão ao nosso redor.

O fim, é sempre o começo invertido. Basta-nos olhar por um ângulo diferente.







"Land of Dreams" - foto: Zé Bicho